Também chamado de galinha e estilita
De seu tempo encharcado
O
cronista dá o seu recado
Sendo
doce ou azedo, mas com regularidade
É
consumido por leitores
Em
poltronas ou salas de aula
Exposto
a sol e chuva, dia após dia
Transforma-se
em estilista
Na
implementação de sua escrita
Contos,
momentos mil
Critica
social de algo vil
Diferente
do articulista, que só expõe e defende textos
É livre na sua redação
E impõe
sua subjetividade
Na
explicação da realidade
O
"eu" desse tipo de escritor
É
de utilidade publica, faz favor
Interferir
no cotidiano é sua função
Fora
de época, publicados em livro
A crueza no tratamento dos assuntos perde a emoção
Mas
tal fato não lhe aborrece
E
crônico que é, nunca arrefece
E
paira por seu tempo, mesmo doente
De
tanto viver nele e melhor entendê-lo em sua mente.
Retextualização da crônica 'O Cronista é um escritor crônico' de Affonso Romano Sant'Anna por Andre Nemeth
Retextualização da crônica 'O Cronista é um escritor crônico' de Affonso Romano Sant'Anna por Andre Nemeth
O
Cronista é um escritor crônico
O primeiro texto
que publiquei em jornal foi uma crônica. Devia ter eu lá uns 16 ou 17 anos. E
aí fui tomando gosto. Dos jornais de Juiz de Fora, passei para os jornais e
revistas de Belo Horizonte e depois para a imprensa do Rio e São Paulo. Fiz de
tudo (ou quase tudo) em jornal: de repórter policial a crítico literário. Mas
foi somente quando me chamaram para substituir Drummond no Jornal do Brasil, em
1984, que passei a fazer crônica sistematicamente. Virei um escritor crônico. O
que é um cronista? Luís Fernando Veríssimo diz que o cronista é como uma
galinha, bota seu ovo regularmente. Carlos Eduardo Novaes diz que crônicas são
como laranjas, podem ser doces ou azedas e ser consumidas em gomos ou pedaços,
na poltrona de casa ou espremidas na sala de aula. Já andei dizendo que o
cronista é um estilita. Não confundam, por enquanto, com estilista. Estilita
era o santo que ficava anos e anos em cima de uma coluna, no deserto, meditando
e pregando. São Simeão passou trinta anos assim, exposto ao sol e à chuva.
Claro que de tanto purificar seu estilo diariamente o cronista estilita acaba
virando um estilista. O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua coluna
no jornal. Por isto, há uma certa confusão entre colunista e cronista, assim
como há outra confusão entre articulista e cronista. O articulista escreve
textos expositivos e defende temas e idéias. O cronista é o mais livre dos
redatores de um jornal. Ele pode ser subjetivo. Pode (e deve) falar na primeira
pessoa sem envergonhar-se. Seu "eu", como o do poeta, é um eu de
utilidade pública. Que tipo de crônica escrevo? De vários tipos. Conto casos,
faço descrições, anoto momentos líricos, faço críticas sociais. Uma das funções
da crônica é interferir no cotidiano. Claro que essas que interferem mais
cruamente em assuntos momentosos tendem a perder sua atualidade quando
publicadas em livro. Não tem importância. O cronista é crônico, ligado ao
tempo, deve estar encharcado, doente de seu tempo e ao mesmo tempo pairar acima
dele.
